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Pessoal da saúde relembra os dois anos de pesadelo da covid

25/02/2022

 Em 26 de fevereiro de 2020 o país registrou o primeiro caso de covid-19 em um homem que deu entrada em um hospital de São Paulo um dia antes. Ele tinha viajado para a Itália, onde havia uma grande contaminação e alto número de mortes na época. Em Campinas, o primeiro caso oficialmente confirmado foi no dia 13 de março - uma estudante que viajou à Bahia e contraiu a doença lá. Dois anos depois, mais de 28 milhões de contaminações e 647 mil mortes aconteceram no país, números espantosos e que simbolizam o sofrimento de centenas de milhões de pessoas, seja pela perda dos entes queridos ou pelas consequências de uma doença que, quando não é mortal, pode deixar sequelas severas.

 

A falta de empenho do governo federal em contabilizar com precisão os números da pandemia indica que os casos e mortes ainda podem estar subnotificados. O médico sanitarista e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina, acredita que o número real de casos pode estar próximo dos 90 milhões e que as mortes, embora em menor número, também estão abaixo da realidade - a estimativa dele é que os óbitos por covid-19 já teriam superado a marca de 800 mil. Com os dados atuais do Ministério da Saúde, a taxa de mortalidade está em 307 e a de incidência está em 13.491 a cada 100 mil habitantes. A letalidade, que indica a proporção de mortes entre o total de contaminados, está em 2,3%. Em Campinas, a Secretaria Municipal de Saúde contabiliza 4.913 vítimas em 163.947 casos, com letalidade de aproximadamente 3%.

 

Ainda antes das primeiras mortes no Brasil, os profissionais de saúde e especialistas da área estavam atentos aos sinais de que essa não seria apenas uma "gripezinha". A Itália, por exemplo, sofria com as mortes e precisou entrar em quarentena. Vídeos circulavam pelas redes sociais mostrando que o silêncio da madrugada não mais existia devido ao barulho das sirenes de ambulâncias que transportavam pacientes. Imagens de filas de caminhões carregando caixões traziam a angústia e temor sobre o que poderia acontecer quando o vírus se espalhasse no Brasil.

 

Em Campinas, a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa), Andrea Von Zuben, contou que logo no começo ficou claro que a doença chegaria à cidade. "Ao conhecer a situação mundial, a equipe técnica iniciou o plano de contingência para o enfrentamento do cenário que estaria por vir. Trabalhamos com as premissas de trabalho conjunto e organizado, com auxílio intersetorial a partir da criação do comitê de enfrentamento da covid-19."

 

O médico intensivista da Rede Mário Gatti, Omar Crisci Cozac, relatou a ausência de certezas naquele momento. "No começo ninguém sabia exatamente a forma de transmissão e a intensidade. Ficamos muito tempo tentando entender a situação. Foram diversos momentos de grande imprevisibilidade. Hoje, depois de dois anos, sabemos uma coisa ou outra, mas no começo era difícil."

 

O sanitarista Vecina, também fundador da Anvisa, explicou que "os primeiros contatos foram complexos e duros. Demorou para cair a ficha. Eu fui ter percepção da gravidade do que enfrentávamos já em março. Até então eu achava que não seria algo tão violento, porém a somatória do que acontecia no mundo e o que começava a acontecer no Brasil me levou a acreditar que vivíamos uma situação extraordinária. E aí foram várias notícias controvertidas, a imprensa não estava preparada para agregar informações rapidamente, estava um pouco perdida - assim como o mundo científico. Estávamos todos aprendendo. Foi um tempo bem difícil".

 

Naquele momento, a forma de transmissão do vírus ainda era incerta - hoje se sabe que o risco de contaminação por superfície é bem pequena, sendo que a transmissão acontece principalmente por meio dos aerossóis. "Para trabalhar, os profissionais de saúde se vestiam como se fossem à Lua. Estressamos muito as equipes e elas tiveram que trabalhar muito mais. Cada troca de roupa demorava 15 minutos e precisava de auxílio de outra pessoa. Foi terrível", completou Vecina.

 

O médico intensivista Cozac seguiu a mesma linha ao relatar o início do atendimento a pacientes em UTI com covid-19. "No começo achávamos que a transmissão era como radiação, nos paramentávamos com várias camadas de proteção. Fomos esmiuçando e vendo que não era bem assim". Cozac atendeu inúmeros pacientes que precisaram ser internados. Ele também comentou sobre o processo de desumanização. "Foram vários que a gente não ouviu nem a voz. Não conseguíamos falar 'olha, seu caso é grave, mas somos bons profissionais e faremos nosso máximo para tirar você dessa'. Com a paramentação, alguns pacientes não sabiam a nossa cara. E como a doença é altamente contagiosa, fazíamos tudo por telefone. Tem família que nunca me viu. Aliás, às vezes ela não via mais nem o paciente. Ele ia para o hospital e se falecia não tinha nem caixão."

 

E o futuro?

 

Após quatro ondas da covid-19, muitos países já estudam a redução das medidas restritivas e não farmacológicas, como o fim da obrigatoriedade das máscaras em locais abertos. Estaríamos próximos do fim da pandemia? Para a diretora do Devisa de Campinas, apenas a Organização Mundial da Saúde pode afirmar isso. "A declaração do início e/ou fim de uma pandemia é dada segundo o Regulamento Sanitário Internacional pela OMS e não é decisão de uma única localidade. No entanto, de acordo com o contexto epidemiológico de cada região, pode haver medidas mais ou menos restritivas."

 

O sanitarista e ex-presidente da Anvisa, Gonzalo Vecina, acredita que a população suscetível diminuiu com a alta taxa de contágio da Ômicron e o avanço na vacinação. "Quando termina uma pandemia? O vírus desaparece? Não, ele continua existindo. Ele vai avançando e quando atinge uma boa parte da população fica difícil encontrar quem não foi atingido. Aqui no Brasil temos uma vacinação que poderia ser melhor, mas importante. Temos cerca de 80% com uma dose, 70% com as duas, 30% com reforço. As outras variantes tinham uma taxa de transmissão inferior e um ciclo de muitos meses. O ritmo de contágio da Ômicron é imenso. Então em oito semanas os casos sobem, descem e diminui a população suscetível, foi basicamente o que aconteceu. A Ômicron começou aqui no fim de dezembro/ início de janeiro e já está caindo. Provavelmente no início de março já estaremos vivendo uma fase endêmica por onde ela entrou."

 

Já o intensivista da Rede Mário Gatti preferiu não fazer previsões, mas explicou que o período de aprendizado desde o início da pandemia deixou todos muito mais preparados para esse momento. "A confiança muda porque sabemos mais ou menos o que esperar. Não uso o termo 'pior que está não fica', pois a pandemia mostrou para gente que sempre pode piorar. A certeza é que não dominamos ainda tudo sobre o assunto. Estamos aprendendo todos os dias".

 

Fonte: Correio Popular

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